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Fonte: AfroeducAÇÃO   

Conheça o universo da literatura negra no Brasil

Você já ouviu falar em literatura negra? E em literatura afro-brasileira? Sendo a resposta positiva ou negativa, seja benvindo ao universo daqueles que revelam, por meio de seus livros, o mundo de negros, negras, pretos e pretas afro – por mais redundante que isso possa parecer – existente no Brasil.

Brincadeiras à parte, quando se conversa com escritores negros de ontem e de hoje fica difícil nomear a arte que eles produzem. Como nomear essa vertente da literatura brasileira? O debate dá pano pra manga. Alguns defendem a idéia da nomenclatura “literatura afrobrasileira”, outros, a de “literatura negra”. Márcio Barbosa, coordenador do Quilombhoje, grupo de escritores paulistanos fundado em 1980, dá a sua versão sobre o assunto: “para mim, literatura afrobrasileira e negra são equivalentes, mas o termo ‘afrobrasileira’ é mais cultural, demonstra ter a preocupação de retratar a cultura brasileira como um todo”.

Museu Afro Brasil
28º volume da Coleção Cadernos
Negros, publicação do Quilombhoje,
que, nessa edição, contou com a
colaboração de escritores como
Ademiro Alves (Sacolinha), Cuti,
Oubí Inaê Kibuko, entre outros.

Contudo, Akins Kinte, poeta e um dos autores do livro “Punga”, discorda: “o termo ‘afrobrasileira’ perde o significado de resistência”. Mas ele próprio alivia o discurso, dizendo: “talvez eu fale isso porque ainda tenho meus 20 anos. Quem sabe, estando mais velho, eu não vá pensar do mesmo jeito que eles?”, referindo-se aos escritores Márcio Barbosa e Oubi Inaê Kibuko, que também participam da discussão.

A literatura feita por negros, que à primeira vista pode soar restrita, não se refere apenas aos negros, mas à cultura do povo brasileiro como um todo, dos excluídos dos dias de hoje e dos que já passaram por várias lutas no passado. E o movimento prol da popularização das letras está crescendo. Prova disso é o encontro de poetas e admiradores do lirismo que se reúnem todas as quartas-feiras à noite, no bar do Zé Batidão, que, juntamente com a Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), promove saraus de poesia no bairro Piraporinha, zona sul da cidade de São Paulo.

É nesse bar que jovens poetas como Akins Kinte e sua parceira no livro “Punga”, Elizandra Souza, vendem seus livros e declamam seus versos. A palavra “punga”, de acordo com Akins, é o nome de um tipo de tambor africano usado em uma dança de origem africana chamada batuque de umbigada, além de remeter também a roubo, furto, ser ligeiro, esperto. Significados é o que não faltam para esses artistas. O próprio pseudônimo utilizado por Akins designa “jovem guerreiro”, na língua africana yorubá.

Ser escritor no Brasil nunca foi fácil. De acordo com Oubi Inaiê Kibuko, que começou a escrever nos anos 80 e, atualmente, é editor do site Cabeças Falantes Online, “escrever sobre a negritude incomoda. O tema é contrário a uma ditadura cujo porão não deve ser aberto”. Mas, segundo ele, o movimento negro está crescendo cada vez mais e tendo continuidade com a juventude que permanece lutando pela identidade do povo negro. “Ver artistas como Akins Kinte e Elizandra Souza produzindo livros é como uma passagem de bastão”.

Para Márcio Barbosa, o papel do escritor negro é dar testemunho da sua história e da sua cultura. “Tem que incomodar e provocar a reflexão. Tem que contribuir para um mundo melhor”, incita. Nesse sentido, o Quilombhoje, do qual Márcio faz parte, lançou, em 2008, a trigésima edição da antologia Cadernos Negros, criados em 1978 para dar visibilidade à produção de autores que não conseguiam espaço no mercado editorial. Inicialmente, a idéia da organização era resgatar a história de escritores do passado, porém, o projeto tomou forma e, ao longo de todos esses anos, conquistou espaço em lugares inusitados, como salões de baile e escolas de samba.

A importância dos Cadernos para a cultura brasileira e, principalmente, para a cultura negra, é tão grande que o próprio poeta Akins Kinte começou a escrever depois que teve o primeiro contato com a publicação. “Os cadernos negros têm uma importância muito grande na minha vida”, relata ele.



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