Dois versos de uma mesma rima Imprimir E-mail
Fonte: AfroeducAÇÃO   
Quarta, 29 de outubro de 2008 17:13

Akins Kinte e Rappin' Hood não se conhecem, mas poderiam trabalhar juntos. Com o uso da palavra, ambos já se mostram atuantes na construção de um Brasil mais igualitário.

De um lado...

Poeta, rapper, documentarista e aspirante a professor de Português, Akins Kinte, com 24 anos, segue a tendência dos dias de hoje: a de “pessoas multi”, que atuam em diversas áreas.

Akins lançou, no início de 2007, o livro Punga, em parceria com a poetisa Elizandra Souza. O livro reúne poesias que enfatizam, principalmente, a atuação do negro na sociedade brasileira. Seu nome Akins significa “jovem guerreiro” em Yorubá, uma das línguas faladas na Nigéria. Já Kinte remete ao personagem Kunta Kinte do livro Raízes negras, de Alex Haley, um dos primeiros romances que marcaram sua vida como escritor.

Akins Kinte
Akins Kinte

Lutar pela inclusão dos negros é uma das mais importantes bandeiras de Akins. “Acredito que os negros têm que buscar caminhos, se mostrar mais”, diz ele. Como documentarista, o poeta produziu - em parceria com os amigos Alan da Rosa e Mateus Subverso - Vaguei os livros e me sujei com a merda toda, filme que retrata as atitudes preconceituosas que negros têm que enfrentar no dia-a-dia. O lançamento foi em junho de 2007, na Cidade Tiradentes, bairro onde Akins viveu durante a infância e a adolescência.

Akins lembra que, até a oitava série, “parecia não ser capaz de se tornar alguém”. Na adolescência, Akins começou a ler e a escrever sem parar. Para ele, o uso das palavras em seu trabalho sempre foi sinônimo de “resistência, orgulho, respeito, autoconhecimento”. No início, Akins escrevia poesia para fugir dos problemas, “mas isso foi mudando com o amadurecimento”, lembra ele. “Escrever é um outro caminho, pode mudar a realidade”, diz ele, que se considera um apaixonado pelas letras.

Akins, por volta dos 15 anos, uniu a poesia ao rap – estilo de música que o fez se reconhecer como negro. “Fazer rap e poesia é ser rebelde, correr atrás e não tapar o sol com a peneira”. Também começou a distribuir, nas portas dos bailes que freqüentava, um fanzine – publicação independente e alternativa – chamado Zulu Zine, com textos sobre a posição dos negros na sociedade. “Foi um marco”, afirma, orgulhoso.

Atualmente, Akins trabalha em uma loja vendendo fios e cabos elétricos, no centro de São Paulo, mas já foi entregador de água, além de vendedor de amendoim e de CDs falsificados de videogames. Mas, avisa: “Não quero trabalhar mais pros outros não, quero poder viver de escrever”. Morando com a namorada Iaiza em uma casa no bairro de A. E. Carvalho, na zona leste de São Paulo, Akins sempre foi muito responsável: “ajudava a pagar as contas em casa quando morava com minha família e, hoje, tenho aluguel pra pagar, comida pra comprar. Tem que ralar”, conta ele.

E do outro lado...

“O hip-hop é uma ação afirmativa que salvou a minha vida”. Rapper desde a adolescência, Rappin' Hood – autor desta afirmação – diz que fazer rap é um compromisso: “sei que ouvir rap é lazer e entretenimento, mas, antes de tudo, é uma maneira de tentar mudar a sociedade em que vivemos e levar uma mensagem de paz para os manos”, afirma.

Rappin' Hood
Rappin' Hood

Essencial para cantar, escrever e passar as mensagens de suas músicas, a palavra é condição de existência da carreira de Rappin' Hood. “Entrei em contato com as letras desde pequeno, por ‘culpa’ da minha mãe. Quando eu tinha sete anos, ela me levou pela primeira vez à biblioteca e disse que era para eu retirar um livro lá toda semana”, lembra.

Apaixonado pelo hip-hop, Rappin' conta que seu primeiro contato com a música se deu aos três anos, quando ganhou uma rádio-vitrola de sua mãe, Bete. Aos nove, Rappin´ já fazia versões de músicas que tocavam nas rádios: “meu sonho e de meu irmão era sermos como o grupo Jackson Five”, recorda. Mas foi aos 14 que Rappin' começou a aparecer em público como rapper. Sua primeira letra – maior sucesso de sua carreira – foi a canção Sou negrão.

Por volta dos 15 anos, Rappin' Hood começou a participar de concursos de rap e, em um deles, conheceu Natanael Valêncio – o primeiro rapper a ter um programa do estilo em rádio comercial. “Foi ele quem me fez acreditar que dava para gravar um disco, porque eu tinha talento”, conta. Até então, segundo ele, era apenas o “Júnior”, filho do Antônio e da D. Bete.

Feliz com o avanço do hip-hop ao longo dos anos, que “cada vez atinge mais públicos”, Rappin' conta que foi seu pai quem o alertou sobre a importância do estudo: “quando eu tinha uns 18 anos, ele chegou em mim e disse que eu não executava tudo aquilo que falava nas minhas músicas”.

Além de rapper, Rappin' Hood trabalha com comunicação desde o final dos anos 90. Começou com um programa na rádio Heliópolis, em 1999, onde ficou durante sete anos, e depois seguiu para a rádio 105,1 FM, onde apresenta um programa de rap, chamado Rap du bom, aos sábados das 20h30 às 24h. “Adoro interagir com o ouvinte. O bom é que qualquer um pode comprar um radinho de pilha”, explica. O músico-comunicador também é apresentador do programa Manos e Minas, que vai ao ar na TV Cultura às quartas-feiras, a partir das 19h30.

Pai de Martim, que o acompanha em diversos shows, Rappin' se preocupa com o futuro do filho, que ainda está na infância. “O duro é que o Martim vai viver em um mundo louco, mas se ele continuar como hoje, vai se dar bem, ele é estudioso”, explica.
Os planos do músico giram em torno de sua esposa, seu filho e dos jovens da comunidade onde mora. “Eu e meu amigo Johnny queremos montar uma ONG aqui na região de Vila Arapoá, Heliópolis e São João Clímaco, pois aqui é nossa casa”, explica. “Precisamos mostrar pros nossos irmãos que não somos menos que ninguém. É preciso acreditar nos sonhos, ter força de vontade, e acreditar na boa vontade de Deus e do homem!”, conclui Rappin', na ‘pegada’ da rima.


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