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Em maio de 2007, o DJ Afrika Bambaataa esteve no Brasil para tocar no festival de música eletrônica Skol Beats. Na entrevista a seguir, o pai do hip-hop fala sobre sua juventude, suas preocupações atuais e manda seu recado para os manos brasileiros.
Ele é gringo, negro, alto, não bebe, não usa drogas, não revela a idade e nem quantos filhos tem. Ele é Afrika Bambaataa, DJ nova-iorquino e um dos criadores do hip-hop. É também o fundador da Universal Zulu Nation, uma organização que tem a missão de “manter o hip-hop vivo”, por meio do ensino e da prática de valores positivos, resumidos no lema “Paz, União, Amor e Diversão”. Conhecido como “a cultura dos quatro elementos”, o hip-hop é a união entre MC, DJ, b-boying e graffiti.
Há cerca de 30 anos, Bambaataa vem trabalhando com jovens das periferias de países do mundo inteiro, por intermédio de sua organização, procurando despertar as consciências para a importância do que instituiu como “o quinto elemento”: o Conhecimento.
Em maio de 2007, Afrika Bambaataa esteve no Brasil para tocar no festival de música eletrônica Skol Beats. Na entrevista a seguir, o pai do hip-hop fala sobre sua juventude, suas preocupações atuais e manda seu recado para os manos brasileiros.
Como foi sua juventude? Como os fatos que aconteceram naquela época levaram você a criar a chamada cultura Hip-Hop?
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| Bambaataa e King Nino Brown, dirigente da Zulu Nation no Brasil |
Bambaataa: A vida era realmente uma batalha, gangues de rua e violência por todos os lados. Mas em meio a tudo isso, tínhamos, por exemplo, grandes professores do Islã. Pessoas como Malcom X e Louis Farrakan. Tínhamos o Partido dos Panteras Negras e Angela Davis. Tínhamos grandes cantores pela paz como James Brown, Aretha Franklin, Sly & The Family Stone, Isley Brothers, John Lennon, e tantos outros. Seja por meio de suas músicas ou de seus discursos, todos me ensinaram algo de bom. Algo que me ajudou a moldar minha mente de forma positiva e a me tirar do ócio e do crime, me levando a pensar em fazer algo pelo meu povo. Além deles, o grande professor Martin Luther King e o Young Lords Party [partido porto-riquenho] foram me despertando pra algo maior.
Foi então que assisti a um filme na TV chamado Zulu, onde os zulus [etnia da região sul da África] lutavam pela sua liberdade contra os britânicos, que tentavam invadir suas terras. Isso me despertou e me fez imaginar: quando eu for mais velho, vou querer ter a minha Zulu Nation, um dia... E hoje temos a Universal Zulu Nation e, quem sabe, no futuro, não teremos a nossa Galáctica Zulu Nation, indo de planeta a planeta defendendo a paz?
O que você pensa dos rappers atuais e desse “novo Hip-Hop"? De artistas como 50 Cent e outros que em suas letras exaltam sexo, dinheiro e violência?
Bambaataa: Bem, o 50 Cent continua sendo meu irmão. E ele representa um lado do Hip-Hop. Nós não temos de nos preocupar apenas com o 50 Cent, mas com as rádios que têm programas que “programam sua mente” diariamente por todo o Brasil, por todo os Estados Unidos, por todo o mundo. Se você toca 50 Cent, você ainda tem Commom Sense, que é outro MC. Se você toca Missy Eliot, nós ainda temos Soul Sonic Force e Sugar Hill Gang. Se você toca Limp Bizkit e Korn, nós ainda temos Beatles e os Rolling Stones. Se você toca o novo samba, nós teremos o velho samba. Você toca o novo Hip-Hop, nós temos o velho Hip-Hop. Então, se você toca coisas novas, dê também espaço para as coisas velhas. Não falo de coisas com dez ou cinco anos de idade, mas música dos anos 40, 50, 60. Vamos misturar isso. Vamos fazer com que as pessoas escutem de tudo um pouco. De repente, as pessoas estarão ouvindo a rádio e dirão “ei, isso é James Brown e os caras do grupo tal usaram naquele som novo”. Ou então você dirá “puxa, isso é Tim Maia. Veja o que ele fazia naquele tempo”. Precisamos chegar nas estações de Rádio e TV e dizer “ei, nós queremos mais equilíbrio na programação. Queremos saber também do passado, das músicas antigas, dos artistas mais velhos e dos trabalhos de artistas independentes”. Só assim os artistas como 50 Cent começarão a cair em esquecimento. Você terá os gangstas, mas terá também os artistas que falam de amor e de paz.
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| Afrika Bambaata explica sobre a história do negro nas Américas |
Já ouvimos você comentar sobre a violência no Brasil. Além disso, quais são suas principais preocupações atualmente?
Bambaataa: O grande problema no mundo hoje é o acesso ao conhecimento, à educação. E também a questão do racismo e da supremacia branca. Muitos dos meus irmãos e irmãs do Brasil precisam se esforçar para aumentar seu conhecimento sobre si mesmos e sobre os outros. Por exemplo, aqueles que se reconhecem como negros brasileiros precisam saber que seus ancestrais não vieram ao Brasil somente em navios negreiros, como escravos. A cultura do povo negro começou muito antes da escravidão. Vocês são os herdeiros de um povo que estava aqui muito antes desta terra ser chamada Brasil, ou América Latina, ou América Central ou do Norte. É preciso buscar as reais origens, não somente a história de quando os europeus chegaram aqui. Por exemplo: você sabe a história de Zumbi? Você pode encontrar muita coisa na Internet sobre ele, mas muito pouco nos livros.
A chave para reverter essa situação é o Conhecimento?
Bambaataa: Nós podemos amar a cultura Hip-Hop, mas se não tivermos conhecimento de como podemos modificar nossa situação, nossa comunidade e nosso espaço e aprendermos a respeitar nossos ancestrais, seremos sempre escravos. Ame a você mesmo, ame seus ancestrais, ame seu povo e tente fazer algo por você, pelos outros e pelo seu povo. Mas, principalmente, respeite a Mãe Terra!
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